Não me fale de Deus
(versos pré-socráticos para o Deus de Spinoza)

Não, não me fale de Deus
Não quero ouvir nada sobre um velho vaidoso e vingativo,
indecente e pervertido
que, esparramado num sofá metafísico,
se diverte às nossas custas
como um fanático espectador de Big Brother.
Não, não me fale de Deus.
Não me interessa nem a primeira linha
da sua cantilena batida
sobre culpa e castigo, pecado e juízo…
Nada me atrai nesse Deus-empreendendor-inescrupuloso
que fabricou terrível veneno
e o espalhou aos quatro ventos
para depois vender caro a salvação.
Não, não… recuso seu veneno
e assim independo da sua salvação.
Não, não me fale de Deus.
Não posso crer num Deus que se diz “bom e justo”
enquanto distribui
em igual perturbadora desigualdade
fome e frio, vida e morte, dor e medo
e manda pragas antes de mandar vacinas,
e dilúvios e terremotos
e uma tristeza inexplicável que não se sabe de onde vem…
não, não me fale desse Deus.
Me fale da força invisível que faz crescer a planta,
que faz brotar do asfalto o girassol.
Me fale da atração e repulsão dos ímãs e dos olhares,
da rotação e translação ininterrupta dos planetas,
da incandescência insistente do sol.
Me fale da força muito visível do operário
empilhando tijolos e concreto entre suor e sangue.
Me fale, me fale
para que eu sinta essa presença anônima
dos muitos braços e pernas
e cérebros e gotas de suor e sangue
cada vez que entrar e sair de uma construção.
Me fale da impetuosa força do desejo
que co-move a humanidade nessas buscas infindáveis:
por riqueza, glória, gozo,
gostos, sabores, saberes,
lutas, labutas e até deuses e demônios.
Me fale. Me fale mais da força do desejo.
Me diga, se diga: o que você realmente quer?
Me fale, me fale do Deus de Spinoza
artista de verso e prosa
me fale do Deus sem nome
sem rosto, sem forma, sem título de divindade
nirvânico, búdico, lúdico
que nada me pede ou dá
Não, não me fale desse Deus
que como um pai sufocantemente superptotetor
mantém crias indefesas sob as asas
pela eternidade…
Me fale da indiferença absoluta
dos deuses, da natureza,
do universo e do cosmo — micro e macro.
Sim, me fale da indiferença…
da absoluta indiferença
e de sua incalculável beleza.